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Boa leitura!

 

POST 1: Comentando o artigo:  “Rapid binge-like eating and body weight gain driven by zona incerta GABA neuron activation”

Zhang et al., Science 356, 853–859 (2017) 

Estudo mostra relação entre GABA e transtornos alimentares

Transtornos alimentares são conhecidos como padrões de comportamento alimentar incomuns e recorrentes que possam ser prejudiciais à saúde de um indivíduo ou capazes de afetar suas interações sociais. Alguns exemplos desses trantornos são a Anorexia Nervosa, a Bulimia e a Compulsão Alimentar. Em tratamentos de pacientes com Parkinson, já foi observado que a estimulação de regiões do subtálamo na tentativa de melhorias motoras, pode levar a traços de compulsão alimentar, desordem caracterizada por episódios recorrentes do consumo exagerado de comida.

A partir dessas observações, um grupo de pesquisadores da Universidade de Yale publicou, em maio deste ano, um estudo na Science que mostra mais evidências a respeito da relação entre circuitos neurais e episódios de compulsão alimentar. Neste estudo, foram investigados especificamente neurônios GABAérgicos da Zona Incerta do Subtálamo.

O GABA é um neurotransmissor amplamente presente no sistema nervoso central tendo importante papel inibitório na transmissão sináptica. A Zona Incerta é uma região do subtálamo pouco estudada composta majoritariamente por neurônios GABAérgicos.

Para o desenvolvimento do estudo foi observado o comportamento de camundongos em resposta a estímulos para liberação de GABA nos neurônios da Zona Incerta. Para que esses estímulos fossem controlados pelos pesquisadores, foi injetado na Zona Incerta dos camundongos um vírus capaz de levar aos neurônios dessa região um gene que expressa uma proteína fotossensível. Com a expressão dessa proteína, a região alvo do estudo tornou-se sensível à luz e pode, então, ser estimulada por pulsos de laser apresentados à fibra óptica.

A partir desse controle de liberação de GABA, foi constatado que a estimulção dos neurônios imediatamente provoca aumento da ingestão de comida. Os camundongos ingeriram 34,5% do alimento destinado para um dia em 10 minutos. Um estímulo recorrente de 10 minutos com intervalos de meia hora (quatro vezes) resultou na ingestão de 74% da dieta programada para 24 horas. Também foi observada uma ativação desses neurônios em resposta à privação alimentar, assim como à sinalização de grelina, principal hormônio responsável pela fome. Como esperado, também foi verificado que a destruição desses neurônios leva a diminuição da ingesta alimentar dos camundongos.

Foi feita então, uma marcação dos neurônios GABAérgicos da Zona Incerta para verificação de suas aferências e, foi constatada, uma projeção dessa região para neurônios glutamatérgicos do núcleo talâmico paraventricular. Esses neurônios glutamatérgicos estariam associados à uma antagonização do efeito de compulsão alimentar, visto que foi observado que a morte dessas células também resulta em episódios de compulsão alimentar.

Concluiu-se então que os neurônios GABAérgicos da Zona Incerta estão envolvidos na inibição dos neurônios glutamatérgicos do núcleo paraventricular subtalâmico, promovendo assim um comportamento associado à compulsão alimentar. O estudo promove uma explicação do envolvimento entre a estimulação clínica de regiões do subtálamo para tratamentos de doenças neurológicas e episódios de compulsão alimentar, assim como abre portas para novos estudos de possíveis tratamentos para transtornos alimentares.

Por Vinicius Sepúlveda (Graduando em Biomedicina-UFF)

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